Um rascunho de romance...
Sondava-me a alma, sempre que, na proximidade física, os pensamentos tentavam esquivar-se das mínimas esperanças talvez realizáveis, talvez não - pois, nessas situações, a dúvida é sempre mais certa do que as certezas. Contudo, o seu querer indomável, e portanto sincero, era a proximidade dos corações; o seu querer inicial e eternamente final era o amor.
- A você um lugar infinito dentro da minha alma;
- A você um especial e indizível carinho;
- A você um... [não sei terminar, não quero/ou não quis, não é ruim]
Permita-me, então, dizer: Obrigado.
Hipóteses de Hipopótamos Hipócritas.
As idéias não precisam ser lógicas, não num mundo em que a razão alcança um outro patamar - com alegorias e proposições além. Por isso, escrevo, ou melhor, abstrato-me concretamente neste Blog. Sejam bem vindos, claro que por Hipótese.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Presentemente amigos
Querida Amizade,
Onde está a sua mágoa?
- nas velhas facções do mundo
- nos velhos confins do nada!
Minha alegria se desnuda
De minhas roupas de cetim
A cor dela está muda
E minhas lembranças não têm fim
Eu te quero aqui, comigo.
Para sempre, ao meu lado.
Mas não te prenda meu amigo,
Mesmo distante és festejado
Antigamente: passo a passo
E no presente: só Deus sabe
E brevemente mesmo espaço
E no futuro: eternidade
Mas por agora dividi o tempo
E segue reto, só na saudade
Repare a brisa - o velho vento :
sábado, 3 de setembro de 2011
História Mágica
Era um perfume tão pesado que os corpos se amolentavam, rendidos, e uma névoa de banho de vapor esfumava os contornos das flores de pétalas abertas, dos frutos enormes, que pareciam prestes a cair. Não se sabia se eram cobras dormentes, ou lianas semivivas, aquelas coisas pendidas nas galharias... Pássaros não se viam, nem sáurios furtivo, nem grandes ou pequenos quadrúpedes. Mas gritos misteriosos, que a gente não podia identificar, feriam de quando em quando os ouvidos, acordando-os do torpor em que os adormecia o zumbir ininterrupto dos insetos. Os pés chapinhavam como em barro, no musgo verdoengo que tapetava o chão.
Caminhávamos, arquejávamos, sem dizer palavra. O nosso guia e rei seguia à frente, invisível, sua presença acusando-se (nas horas de maior angústia, parecia) por um agitar frenético de guizos. Um dia, não mais o escutamos e cada qual, com um ingrato alívio, seguiu o seu próprio caminho. Cada qual, se extraviou, sentou-se, enfim, para morrer.
E cada um morria pensando invejosamente que os outros houvessem encontrado alguma coisa, uma fonte de virtudes nunca imaginadas, uma princesa, um mágico, algum Deus ainda bárbaro ou no seu mais adiantado estágio, mas sempre um deus, mas sempre alguma coisa. Pensavam em tudo isso, sim... E sentiam, no entanto, um monstruoso orgulho de morrer sozinho.
Transubstanciação
"Mendigo... ou seria a nossa figura no outro mundo?"
Ali, no canto da rua, uma sombra tremida
Caminha, caminha...
As folhas das árvores, no Frêmito, sentem seu medo
No vento
E, de repente,
Todas as coisas imóveis se desenharam mais nitidamente no
Silêncio
As pálpebras estavam fechadas...
Os cabelos pendidos...
E ao longo das janelas mortas
Estranhos passos se ouviam
E como resposta ao seu pedido, uma porta se abriu.
Anjos traçaram cruzes nas calçadas...
Era o mendigo – Senhor noturno das ruas!
Tra lá lá
"Qual a chave para abrir seu coração?
- A escolha é simples, a decisão que é crucial"
“Vamos falar de Amor”. Pediu-nos furtivamente uma colega.
Ah! Mas como se diz tudo, sem pensar em nada, e de modo tão natural e fatídico quando se acreditar está falando de Amor. Quanta sinceridade há nas nossas narrativas de amores e, valha-me Deus, de desamores. Não digo que não sejam verdades. Porém, tu bem sabes vivido leitor que a nossa verdade é uma realidade secundária. Pura invenção das nossas crenças mais desesperadas.
Pediu-nos para falar de Amor. Mas sim, só o que me trouxeste foi um romance de enredo torto e mal acabado. Descreveste-me uma história de amor. Não me falaste de Amor.
Sorrir-lhe tristemente ao me pronunciares que “O amor só ocorre uma vez na vida”.
Eu tentaria essa: “O amor só ocorre uma vez por vida. E cá para nós, tantas vidas nós temos ao longo de uma única!
Acho que ninguém me ouviu. Também pudera, não compartilho seus sofrimentos e isso parece a eles uma qualidade absolutamente necessária para se falar de Amor. Eu, abismalmente, ria. É como se dissessem que só teria o direito de falar da vida quem já morreu.
Ah! E o pior da noite: “Eu nunca tive assim um grande amor”. No que eu poderia transformar, pela conotação que deram à conversa, nisso: “Eu nunca vivi um romance”. E, para o meu alegre desgosto, lembrei horas depois de uma herança que nos deixou Mário Quintana e que nos dizia mais ou menos isso:
“A minha vida foi um romance” – diziam, depois de uma pausa – e um suspiro, aquelas velhinhas que apareciam antigamente nos lares a vender rendas e bordados. Não sei por que os de casa desconversavam. Por sinal, que anos depois escrevi, para consolá-las postumamente, um poema que começava assim: “Minha vida não foi um romance”...
Não, a vida nunca é um romance: falta-lhe o senso de composição, o crescendo que leva ao clímax. Tudo acontece tão sem lógica e sem preparo que os seus golpes nos deixam atônitos, mas de olhos secos, como se fossemos heróis, nós que enxugamos furtivamente os olhos no escuro das salas de cinema – só porque o diretor do dramalhão soube desenrolar devidamente o filme."
É, esperto leitor, como já de certo percebeste, falou-se de qualquer outra coisa, menos de Amor. E espero, para o seu próprio bem, que não penses que irei aqui terminar a desgraçada conversa. Entretanto, farei, em tom triunfal de despedida, um resumo do que o mundo – e, é claro, os meus românticos amigos – defini por amor:
sábado, 5 de março de 2011
A preguiça, Roma, Os discos voadores e Outras coisas afins
Dizia-me ontem João Sabiá, numa de suas
costumeiras observações de filologia impressionista, que o"aí" (a conhecida preguiça do Norte) era mesmo umbicho tão preguiçoso que até seu nome indígena erabrevíssimo: para que tanta sílaba? Coisa assim comoaquela batidissima história do vendedor deamendoim... Discordei. A preguiça que a gente sente, apreguiça no sentido próprio, é longa, arrastada. E o bocejo, quanto mais preguiçoso, maiscomprido é. Por isso dizia há tempos não me lembra quemque a voz de Dona Gertrudes era uma voz decadeira de balanço. Ótimo. E o nosso caboclo, o nosso biriba, o nosso guascaaté, pitando até o último o seu toco, sorvendo até ofinzinho o seu chimarrão, quando quer dizer "re-cruta", por exemplo, não diz "recruta" diz"reculuta". É mais gostoso, mais brasileiro, mais de redeou do galpão. E a voz gostosa das mulatas, eu moço? Aí é queestá: voz de melado, langorosa, que aprenderam delasas iaiás, na doce madorra dos cafunés, e até hoje aconservam, graças a Deus, tão ben. Questão de raça, de clima..., não se é preciso sernenhum Gilberto Freyre para descobrir isso. Senão vejamos um caso bem simples e bemsignificativo como o da tão conhecida palavra latinacorona. Eis o que aconteceu depois que se alastrou odomínio e, com este, a língua dos imperialistasromanos: na Itália, o seu berço, essa palavra continuacorona mesmo, o que não é nada de espantar; emfrancês deu couronne, em espanhol, também corona,em português, coma e, em inglês, crown.
Que é isto, seu moço, que susto! Onde é queestão as vogais? Onde é que está a palavra? - O gato comeu. - Não, foi o clima. Com aquela friagem toda,como abrir tanto a boca? Preguiça? Qual! Com aqueleraio de clima, eles tinham de ser expeditos, tinham defazer movimento. Nada de redes ou coisa parecida:quando muito, monossílabos.Scotch, bastante scotch... Questão de clima, eportanto de raça, e portanto de temperamento... - Tenho dito. - Mas - observou um marciano que, do alto doseu disco voador, estava escutando telepaticamente anossa conversa mole - mas ele não acabou de dizerque os próprios donos da palavra a pronunciavamabertamente?
- Sim - confirmou o piloto. - E não foram os romanos um povo deconquistadores, como bem sabemos desde aquela época portele-pato-visão? - Povo? estranhou o piloto. - Povo, sim! - Mas, naquele tempo, o povo não se metia naguerra. Quem fazia a guerra eram os profissionais, ossoldados. - E o governo? - Que governo? - O governo! - explodiu o co-piloto, irritadocom o laconismo irônico do companheiro. - Pois ogoverno não emanava do povo, como afirmam até hojeos terrenos? - Isso era também com os soldados. - Ah, que povo feliz! - suspirou o co-piloto. Pois bem, quaisquer que sejam as reservas quefaça o leitor quanto às aspirações políticas desteúltimo, quanto às observações históricas do primeiro,não é nada disto que me impressiona de momento. Oque me impressiona e entristece é o fato de que essesnossos dois observadores, e todos os marcianos,comunicam-se entre si e conosco apenas por viatelepática, como afirmam categoricamente os espíritas,por testemunho dos espíritos. Pois se o leitor ainda selembra, João Sabiá e eu estávamos falando naexpressividade e gostosura das palavras. Especialmentena gostosura. E se descerem e forem à Bahia,comohão de saborear devidamente os pratos baianos, decujo sabor é parte integrante o sabor de seus nomes?E se, ainda na Bahia, lhes oferecerem um recital deCastro Alves? Pois sempre se mostra aos visitantes
ilustres o que há de melhor e mais típico na terra...Entristece-me que lhes passe de todo despercebida aincomparável beleza destes versos do Navio Negreiro: Vêm os guerreiros helenos,Belos piratas morenosQue a vaga ironia embalou... Pois, se apenas lhes captarem a essência, querestará desses versos? Bem sabe o leitor que o verso é,antes de mais nada, uma fórmula encantatória e omelhor poeta é aquele que tenha descoberto maiornúmero dessas mágicas cuja força reside na palavra.
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